sábado, 28 de março de 2009

Gran Torino*



Sobre vitalidade e vida

Nacionalista e com postura política conhecidamente conservadora – embora não tão simplesmente resumível. Veterano do exército, escalado para a guerra da Coréia. Identificado com e ligado ao (meio) oeste norte-americano. As duas definições servem tanto para Clint Eastwood (que não foi à guerra devido a um acidente de avião) como Walt Kowalski, inicialmente um dos velhos mais ranzinzas do cinema. Com aparências indiferenciáveis em alguns momentos, ambos estão em Gran Torino (EUA/ Austrália, 2008), o novo filme do outrora Homem Sem Nome de Sergio Leone.

O diretor italiano, inclusive, vem muito à mente no começo da do filme, o que, curiosamente, não é bom. Apesar de no funeral de sua mulher, Sr. Kowalski deixa claro que maior que sua tristeza é a indignação com aqueles que não respeitam o momento do jeito que ele considera ideal. O polonês de coração americano-xenófobo resmunga o tempo todo como um velho mal-humorado caricato, e diz tudo o que pensa, mesmo quando a fala parece obviamente apenas um pensamento dele para ele mesmo. Até o cuspe de Kowalski, que nos remete, entre outros, a Henry Fonda e ao próprio Eastwood nos filmes de Leone, está menos para um clichê estilizado do velho chato do que para um excessivo didatismo na construção do personagem. Até aí, talvez numa busca por uma coerência dentro dessa incoerência (caricatura x gente), os grupos presentes e mostrados no filme funcionam como estereótipos – antes de muitos (mas não todos), enfim, terem a oportunidade de se apresentarem como além do que foi ali “criado”.

Num encontro assaz importante para o resto do filme, Kowalski ‘encontra’ uma vizinha que não o agrada por ser asiática (hmong, povo que veio para os EUA após a Guerra do Vietnã). “Por que vocês vieram de tão longe para o ‘meu’ bairro?”, e “pensei que o frio do meio-oeste americano espantasse todos os idiotas daqui” são algumas das frases de Kowalski nos primeiros momentos de relativo carinho demonstrado por ele – até então resumido a um misantropo que demonstra mais afeto a um carro que não usa (seu Gran Torino, que pouco aparece e muito complementa a idéia do filme) do que a qualquer ser humano.

Principalmente a partir daí, felizmente, torna-se mais clara a leveza com que Eastwood consegue levar Gran Torino, num contraste com a dureza de Kowalski, que em meio a tanta aspereza do início, mostra pouco a pouco empatia até para com quem ele inicialmente odeia. Sua solidão começa a ser compreendida e palpável, além de parte do que fez ele ser o que é. Com muito já realizado e impossível de ser refeito, além de pouco ainda por fazer, Kowalski tem consciência de que ele mesmo deve escolher o rumo de sua historia, e (indiretamente) dos outros. Essas decisões tomadas (e em parte a falta delas) resultam em imagens e momentos que devem martelar na cabeça de quem assiste por muito tempo.

Para melhor ilustrar a experiência, fui assistir a Gran Torino com o final na minha cabeça, graças a uma infelicidade infantil do bom Luis Carlos Merten, que sugeriu com todas as letras – no seu blog – o que acontece no fim do filme. Ainda assim, e com mosquitos que vêm por tabela no cinema do shopping Barra, me pareceu inevitável sentir o nó na garganta e encher o olho de água no final da projeção.

Em outros trabalhos memoráveis de Clint na frente e atrás das câmeras (para não falar em Dirty Harry), muito se fala da ligação de Gran Torino com Os Imperdoáveis, mas que para mim dialoga menos com esse aqui do que Menina de Ouro. A diferença é que Gran Torino, diferente do filme estrelado por Hilary Swank, parece um melodrama ainda mais enxuto, tanto pelo roteiro (de Nick Shenk, responsável por boas sacadas de humor e menos apocalíptico com seu personagem principal), como pela direção de um mestre, que sabe ser contido sem ser frio, e emocionante sem ser piegas.

Aos 78 anos, Clint Eastwood faz o tipo de cinema que talvez só ele seja capaz de fazer com tanta autoralidade e (principalmente) autoridade hoje em dia. Como se não fosse suficiente, ele também funciona praticamente como um messias da narrativa clássica bem feita, sem parecer, em nenhum momento, ter essa idéia como uma prioridade. A impressão que fica é que sua prioridade mesmo parece simplesmente fazer filmes. Com a experiência de alguém que, como Kowalski, entende de vida e de morte. E com o talento de quem sabe tratar de ambos, e como poucos, no cinema.

Fime: Gran Torino (idem, EUA/ Austrália, 2008)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Clint Eastwood, Bee Vang, Ahney Hor.
Duração: 116 min

8mm
Kowalski

Ver um personagem e uma persona tão marcantes como Eastwood e Walt Kowalski fizeram me lembrar de uma atuação mais potente até que o Gran Torino de Clint: Marlon Branco em Uma Rua Chamada Pecado (1951), onde ele interpreta Stanley Kowalski. Não me lembro de um sobrenome não-inglês no cinema em dois ícones-personagens tão poderosos e sem ligação entre si (mesma família não vale, como no caso dos Corleone). Alguém aí lembra de outro?

Edgar Navarro de novo
Falei do Eu Me Lembro na semana passada, quando, por coincidência, Edgar Navarro começou a filmar seu segundo longa – só vi essa semana a entrevista dele a João Carlos Sampaio, do A Tarde.
O Homem que não Dormia tem em Igatu (município de Andaraí), na Chapada Diamantina, a locação para a maioria das cenas. Mas, sem ver nada até agora, o melhor para mim já são os personagens. Nas palavras de Navarro: “são tipos bem diferentes: um padre, a mulher de um coronel, um pobre com retardo mental, uma mulher simples e de vida sexual liberta e um louco. Todos eles sonham com uma espécie de alma penada, um rico barão que morreu protegendo a sua botija de ouro”. Para completar, ele próprio (quem já viu sabe que figura é) vai interpretar o rico barão. Coisa válida vem por aí.

Qualquer resumo é pouco
Ainda não vi muitos dos filmes que concorreram à Palma de Ouro em Cannes ano passado, mas Entre os Muros da Escola (2008), de Laurent Cantet, definitivamente, é digno dela.

Vistos e/ou revistos durante a semana:
* Louca Paixão (1973), de Paul Verhoeven
* Dias de Loucura (1990), de Wong Kar-Wai
* Escola de Rock (2003), de Richard Linklater
* A Fonte da Donzela (1960), de Ingmar Bergman
* Aniversário Macabro (1972), de Wes Craven
* A Conversação (1974), de Francis Ford Coppola
* Entre os Muros da Escola (2008), de Laurent Cantet (cinema)
* Gran Torino (2008), de Clint Eastwood (cinema)


Imagens em: http://www.thegrantorino.com/

* Coluna 70mm originalmente publicada no jornal semanário O Trombone – Itabuna-BA.

sábado, 21 de março de 2009

Eu Me Lembro*



(Na segunda metade do ano passado, acho que ainda antes de publicar o primeiro texto da 70mm, o diretor baiano Edgard Navarro veio lançar no Centro de Cultura daqui o seu primeiro longa-metragem, Eu Me Lembro. Filme e realizador simpáticos, além de genuinamente baianos, aumentaram minha vontade de rabiscar sobre ambos, pelo simples exercício de escrever mesmo. Ainda sem poder ir ao cinema, e sem publicar o texto na época, aí vai ele).

Eu Me Lembro (idem, Brasil, 2006), de Edgard Navarro, é uma coisa pra ser vista, revista e sempre citada, até pela pouquíssima circulação que teve. Obra semi (ou quase totalmente) auto-biográfica, carrega uma honestidade que, mesmo com algum excesso e perda de rumo, funciona como uma bela divagação poética sobre o próprio passado.

Pra ficar claro a quem se impressionar com o debutar de Navarro, é bom lembrar que ele chega ao seu primeiro longa já com 56 anos, mas um currículo respeitável de curtas-metragens nas décadas de 70 e 80. Brecou sua produção em 1989, quando dirigiu aquele tido como seu melhor resultado até então: o média-metragem Superoutro. Depois dali Navarro demorou quase 20 anos para voltar à ativa de fato, em 2006. Embora todo esse período possa fazer qualquer um perder o tato com a câmera, Eu Me Lembro não demonstra nenhum sinal alarmante de falta de familiaridade entre diretor, seu instrumento, tema e atores.

Dividido em duas partes, Navarro “se narra” através de Guiga (inspirado no próprio diretor, mas, de acordo com ele próprio, com toques criados e de conhecidos de sua infância), primeiro como menino, depois como adulto. As cenas de Guiga criança mostram parte do instinto iconoclasta do diretor, que filma fantasias de um menino que, entre outras coisas naturais, começa a descobrir que o pinto e a mão podem ter mais funções do que papai e mamãe disseram. Navarro explora também a normalidade de, como criança, querer saber sobre muita coisa que nem alguns adultos têm opinião própria e/ou relevante, como religião e política. Toda essa parte fascina não só pelo tom pessoal, como também pela universalidade de questões apresentadas. Com ironia, humor ou simples curiosidade, coisas sempre válidas.

Já o Guiga adulto entra em contato com indagações diferentes. Ele já descobriu novas funções para o pinto e as mãos, mas também para a cabeça e a boca. Entra em contato com gente ligada a toda atmosfera nostálgica da época retratada, em cenas interessantes, embora muita gente pareça uma (quase sempre irritante) caricatura (com boa vontade, aqui vista como um arquétipo aceitável): “o intelectual”, “o revolucionário”, “os hippies drogados”, e por aí vai.

É a partir daí que o filme começa a se perder numa divagação talvez supérflua que, paradoxalmente, é também fascinante. A questão psicodélica-surreal passa como um longo momento de coisas já filmadas e vistas em outros tantos (bons) filmes sobre a época, e acabam funcionando como um genérico (para não usar termo pior) numa obra que transborda autoralidade. Nesse momento, tem-se a impressão de que Navarro ficou tão apaixonado pela própria história que se perdeu em meio à idéia de filmar a psicodelia e o seu passado, que conflitaram com o finalizar do filme, até ali muito mais único.

A narração que aparece em algumas partes do filme também é curiosa. Às vezes brilhante e intimista (complementando a imagem sem ser descartável), em outros momentos ela foge do clima ao assumir um tom excessivamente literário, dissonante de uma obra que transborda uma espécie de poesia naturalista.

Por outro lado, essa poesia exala uma paixão que é absolutamente maravilhosa. São belas as referências às coisas da época, da Bahia a Pink Floyd, passando por 2001 – Uma odisséia no Espaço (1968), Hair (1979) e Frederico Fellini como um todo – Amacord (1973), aliás, é provavelmente a maior influência para o filme de Navarro.

Mesmo que com um possível deslize provocado talvez por uma paixão quase cega à época revisitada, pode-se dizer que Eu Me Lembro funciona como uma honesta declaração de amor ao passado. Como muitas outras (até melhores), mas talvez como a mais expressiva da e para a Bahia nesse tempo recente. Da curiosidade pura e infantil até o contato com a vida como ela foi e é, passando pelo inegável amor ao cinema.

Filme: Eu Me Lembro (idem, Brasil, 2006)
Direção: Edgard Navarro
Elenco: Lucas Valadares, Fernando Neves, Arly Arnaud, Valderez Freitas Teixeira.


8mm
Salvador
Continuando em Salvador, nossa capital recebe desde anteontem (19) o V Panorama Internacional Coisa de Cinema, que vai até o dia 26, quinta-feira. A melhor notícia (aparentemente e em teoria) é o que diz o site do evento: http://www.coisadecinema.com.br/Hotsite/. “Se, em um primeiro momento, o Panorama colocará o cinema no centro das atenções e da cidade, no final o festival irá circular em cidades do interior da Bahia, levando o melhor do cinema brasileiro e mundial”. Que assim seja.

49
Seguindo na onda patriótica (mas nunca bairrista, por favor), que começou semana passada com Glauber e passou por Navarro e Salvador, nesse sábado (21) Ayrton Senna completaria 49 anos. Muita gente que ama cinema considera esporte somente as atividades físicas pelos atores, os únicos atletas do mundo, que não precisa de outros. Mas, indo nessa contramão, e reiterando um óbvio ululante, Senna é desses ídolos irretocáveis que, como exceção que foi, tem perdoadas todas as possíveis besteiras que tenha feito na vida. Gênio brasileiro – como poucos. Sempre bom lembrar.

Vistos e/ou revistos durante a semana:
* Do Outro Lado da Lei (2002), de Pablo Trapero
* Amor Só de Mãe (2003), de Dennison Ramalho (curta)
* Vidas Sem Rumo (1983), de Francis Ford Coppola
* O Selvagem da Motocicleta (1983), de Francis Ford Coppola
* As Canções de Amor (2007), de Christophe Honoré
* Boogie Nights (1997), de Paul Thomas Anderson
* À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964), de José Mojica Marins
* Beleza Roubada (1996), de Bernardo Bertolucci
* Menina Santa (2004), de Lucrecia Martel
* Edifício Máster (2002), de Eduardo Coutinho

Imagens em: http://www.adorocinema.com.br/

* Coluna 70mm originalmente publicada no jornal semanário O Trombone – Itabuna-BA.

sábado, 14 de março de 2009

John Alonzo: O Homem que Fotografou Chinatown*



Filme, personagem e homenagem

John Alonzo: O Homem que Fotografou Chinatown, (The Man Who Shot Chinatown: The Life and Work of John A. Alonzo, ALE, 2007), de Alex Schill, pode suscitar longos e interessantes debates numa mesa de bar – apesar de não somente aí, com boa vontade. O porém é que esses debates, contudo, não são reflexos de questões levantadas pelo filme, mas sim de pontos esquecidos ou negligenciados – quando não corpos estranhos.

Como o título indica, o documentário trata da vida e obra de John Alonzo, “que fotografou Chinatown”, de Roman Polanski. O interessante é que o próprio nome original já coloca o personagem abaixo de um filme, como se o fotógrafo só existisse graças àquela obra específica que filmou – mesmo que ele tenha sido mais que isso.

Desde o início, O Homem que Fotografou Chinatown investe naturalmente em muito do que Alonzo fez, na e pela fotografia de cinema, mas também em sua vida pessoal, num recorte que nunca fica muito claro, deixando a impressão de que se queria abordar tudo na vida dele, do trabalho como zelador à crise no casamento. Em meio a essas abordagens e a essa falta de definição sobre o que falar e não falar, entra uma questão aberta quando se comenta Chinatown e que é ignorada no resto do filme: até que ponto o mérito das imagens mostradas são do fotógrafo? Qual o conhecimento de câmera e iluminação do diretor? Qual a contribuição teórica e prática de ambos para o resultado final?

Não se trata aqui de responder essas questões no documentário, pois seria necessário reunir toda a equipe do filme e tentar fazer com que todos eles se lembrassem do percentual de contribuição de cada um para cada cena. Ou seja, além de mexer com a sempre fantasiosa memória, muita gente teria que ser ressuscitada. Sendo isso impossível, soa oportunista entregar (extra) oficialmente o mérito do que se vê na tela ao personagem do filme.

O curioso é que esse aparente oportunismo se torna irônico quando sabemos (ou descobrimos) que Alonzo não foi a primeira opção para Chinatown e, como o próprio filme deixa claro, seu trabalho criativo foi limitado um bocado por Polanski. O filme parece dizer: “Olha esse trabalho de Alonzo, que bonito... olha o de cá, bom também... e esse outro, que beleza. Ah, mas o de cá é outra maravilha, como era o bom esse rapaz... e o daqui, olha o daqui. Tá vendo? É por esse que ele é mais conhecido... Mas, olha, aqui ele não fez quase nada”.

Lógico que Alonzo teve importância e o filme mostra parte dela, com acervo de imagens e de entrevistas razoável, além de parte de depoimentos do próprio Alonzo. “Eu quero ser o melhor diretor de fotografia de Hollywood em muito tempo”, chegou a dizer. Bom ele foi (ainda trabalhou, entre outros, com Brian de Palma em Scarface), veio com novas idéias e mudou um pouco o jeito de se filmar em Hollywood – e o filme mostra muito disso, no seu ponto mais alto.

Por outro lado, em meio a esse legado técnico-inventivo, o filme perde um tempo completamente desnecessário para se falar sobre a família de Alonzo e suas filhas, com as quais ele não tinha boa relação – se separou desde cedo e morreu sem se reconciliar com duas de três delas. Vemos parênteses grandes para se falar sobre o assunto e a vida pessoal dele, no que soa como um encarte da revista Caras no meio de um protótipo de Cahiers du Cinéma.

O problema de recorte e um certo desleixo para manter uma idéia coerente com a ligação entre mérito, talento, arte e coletividade parecem ser os maiores reveses aqui – não tenho pretensão nenhuma em fazer essa ligação. Mesmo que percebamos algum material interessante (com uma naturalmente não explicada falta de entrevistados que poderiam acrescentar mais – o que é ligado diretamente à falta de recorte definido), o resultado não está à altura do personagem, que tanto fez pelo que foi utilizado para se falar sobre ele. O que poderia ser um cruzamento de homenagem com metalinguagem (ou outra coisa diferente, desde que definida e assumida) se transformou num trabalho que não chega perto do potencial. Uma pena.

Ps: Retrocesso na voz, ida ao cinema vetada. Até queria ver Operação Valquíria, mas...

Filme: John Alonzo: O Homem que Fotografou Chinatown, (The Man Who Shot Chinatown: The Life and Work of John A. Alonzo, ALE, 2007)
Direção: Alex Schill
Elenco: John A. Alonzo, Roger Ebert, Richard Dreyfuss, William Friedkin.

8mm
Se Eu Fosse um Grilo Feliz
O site FilmeB divulgou na terça-feira (10) as maiores bilheterias nacionais do ano. O Menino da Porteira (com o cantor Daniel), de Jeremias Moreira Filho, era o terceiro, com R$ 128.090,00; a animação Grilo Feliz 2, de Walbercy Ribas, o segundo, com R$ 197.119,00; e Se Eu Fosse Você 2, de Daniel Filho, de outro planeta: R$ 5.479.985,00. Ou seja, seriam necessários mais de 27 Grilos Felizes (sic) pra se chegar a Se Eu Fosse Você 2. Haja indústria, alegria...

Fazem falta
Sábado passado (7), dia da publicação da coluna – seguinte ao que terminei de escrevê-la –, foi o décimo aniversário da morte de Stanley Kubrick. É difícil falar algo não dito sobre ele, mas, pelo menos pra mim, depois de assistir a um filme de Kubrick (coisa que pela primeira vez não faço há meses, veja só) sempre fica a pergunta: como alguém tem a audácia de fazer cinema depois do que esse cara já fez?
Nesse sábado (14), exatamente uma semana depois, Glauber Rocha completaria 70 anos. Pessoalmente, embora goste especialmente (mas não só) de O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, nada do que ele fez (e que eu já tenha visto) me atrai desesperadamente, e muito do que ele defendia, e como defendia, me incomoda. Mas não dá pra deixar de lembrar de Glauber, e de como ele deve ter pesadelos no túmulo, quando vemos Se Eu Fosse Você 2 arrecadando como 27 grilos felizes.

Vistos e/ou revistos durante a semana:
* M – O Vampiro de Dusseldorf (1931), de Fritz Lang
* Cleópatra (2007), de Júlio Bressane
* Sem Fim (1985), de Krzysztof Kieslowski
* Barton Fink (1991), de Joel (e Ethan) Coen
* Os Bons Companheiros (1990), de Martin Scorsese
* Instinto Selvagem (1992), de Paul Verhoeven
* John Alonzo: O Homem que Fotografou Chinatown (2007), de Alex Schill

Imagens em: http://www.guardian.co.uk/ e http://www.voltairenet.org/

* Coluna 70mm originalmente publicada no jornal semanário O Trombone – Itabuna-BA.

sábado, 7 de março de 2009

Leonera*



Da delicadeza à natural falta de

Leonera (idem, Argentina/Coréia do Sul/Brasil, 2008), de Pablo Trapero, é um dos exemplos mais claros de como empatia ou antipatia (ou a falta delas), apesar de presentes, podem se tornar secundárias se comparados ao êxito de se gerar aproximação estritamente humana do mundo que cerca um personagem. Mesmo quando o investimento inicial na construção dessa atmosfera própria toma um rumo diferente, através do qual o personagem assume o filme para si e o leva para um final talvez simplório.

Antes, contudo, Leonera começa com imagens que demoram a dizer o que significam, até um assassinato que não percebemos exatamente como aconteceu. Esse crime, que envolve versões distorcidas pelos suspeitos, termina colocando na cadeia Ramiro (Rodrigo Santoro, que não compromete) e Julia (interpretada por Martina Gusman).

Desde então já sentimos uma quantidade absurda de organicidade presente, não só em Julia, sobre quem é o filme, como no ambiente. O presídio transpira enquanto ela inspira, tudo é humano, tem vida. A atuação de Gusman, aliás, é no mínimo do mínimo corajosa. Ela começa visualmente mais atrativa (apesar de abatida), passa para uma grávida sem travesseiro – com um barrigão de verdade –, e chega a momentos em que o ar da prisão parece oxidar toda sua fisionomia.

No período que passa na cadeia, Julia tem que lidar com uma guarda “do mal”, mas que parece até de verdade (existem pessoas de verdade que são caricatas de algum jeito, ora) quando nos defrontamos com uma colega de mesmo função mas que se mostra mais compreensiva. Esse caráter humano, pelo bem e pelo mal, sem soar pretensioso ao querer sintomatizar ou responder demais as coisas, carrega bem Leonera.

Esse poder que Trapero tem de fazer seus personagens se expressarem não é novo, e é muito bem notado no delicioso Família Rodante (2004), por exemplo. Assim como ali, apesar de em tons bem diferentes, aqui seus personagens não agem simplesmente, mas vivem de acordo com as circunstâncias, sem que essas soem colocadas para simplesmente provocar a reação obtida, e sem que as pessoas se mostrem passivas. Em Leonera, esse jeito Trapero de escrever/dirigir se mostra claro com Julia (e tudo o que a rodeia), que demonstra uma naturalidade bem vinda em todas as atitudes tomadas, mesmo com algumas potencialmente controversas, mescladas com outras imagináveis e compreensíveis para um mãe de um filho pequeno.

Em meio a esses acontecimentos que fluem com muita lubrificação, alguns anos se passam e chega o dia em que Julia sai da cadeia – não para sempre, fica claro. Acompanhamos então sem cortes o percurso que ela faz dentro da prisão, cujas marcas parecem pulsar junta e naturalmente com ela. O ponto é que, embora essa fluidez esteja presente outra vez aqui, talvez o pecado do filme seja esse caminho bem trilhado para um final que fecha bem o título e a idéia, mas que pelo menos pra mim soa decepcionante.

Isso porque Leonera pode ser traduzido como lugar onde ficam as leoas, ou mais especificamente aqui, como o local onde ficam as detentas com filhos. E para um filme que investia tanto na construção e reconstrução de um ambiente e de uma situação tão bem cuidadas, o fim remete a uma idéia melodramática que soa mecânica e não bem-vinda para tudo que vimos tão brilhantemente ilustrado até ali.

Relembrar Leonera depois de se ter chegado a esse término o torna quase previsível, embora esse “problema” – que a princípio não é necessariamente um problema – seja claramente minimizado pelos méritos do filme, que não são poucos. Força ele tem.

Ps: Escrevi o texto mais de duas semanas depois de ter visto o filme, o que não é o ideal, eu sei. Mas o problema é que recebi a visita do mosquito maldito e, bem, muito mais até do que sexo, dengue = cama. E como o cinema não vem até Maomé, Maomé vai até à memória.

Ps2: Muito do que havia anotado (no PC) sobre Leonera se perdeu quando decidi escrever sobre Sim, Senhor na semana passada – na retrasada não houve texto pela mudança do jornal. Nesse tempo, perdi muita coisa. No dia não gostei tanto do filme, como o texto pode sugerir. Mas hoje, em minha cabeça, ele é mais ou menos o que está aí.

Filme: Leonera (idem, Argentina/Coréia do Sul/Brasil, 2008)
Direção: Pablo Trapero
Elenco: Martina Gusman, Elli Medeiros, Laura García, Rodrigo Santoro.


8mm
Argentina

Acho uma bobagem torcer contra a Argentina no futebol, porque realmente gosto de futebol. E acho uma besteira maior ainda quando pessoa torce contra o cinema dos vizinhos ou se irrita porque a safra de cineastas de lá é melhor do que a daqui – há controvérsias, mas concordo. Enquanto bem feito e enquanto cinema, qual o problema de ser argentino, sueco, romeno ou extraterreno? E de se assumir isso?

Brasil
Sam Dunn é um músico e antropólogo que sabe o que faz e do que fala. Depois de dirigir Metal – Uma Jornada pelo Mundo do Heavy Metal (2005), a história audiovisual do gênero, e Global Metal (2008) – que não vi, ele dirige Iron Maiden: Flight 666, que acompanha a turnê do Iron em 2008. O documentário tem estréia mundial marcada para 21 de abril.
Produção americana, dirigida por um canadense (co-dirigido por Scot McFadyen), sobre uma banda inglesa, o filme tem pré-estréia mundial marcada para o próximo sábado (14), veja só, no Rio de Janeiro. A sessão – que acontece antes do show da banda (na praça da Apoteose) – está marcada para às 14 horas no Cine Odeon, que torço para estar com todos os canais de áudio impecáveis. O ingresso, compreensivelmente salgado, custa R$ 80 – R$ 40 a meia.

Vistos e/ou revistos durante a semana:
* As Idades de Lulu (1990), de Bigas Luna
* Família Rodante (2004), de Pablo Trapero
* O Homem que Amava as Mulheres (1977), de François Truffaut
* Boca de Ouro (1963), de Nelson Pereira dos Santos
* Scoop – O Grande Furo (2006), de Woody Allen
* O Selvagem (1953), Laslo Benedek
* Bonequinha de Luxo (1961), de Blake Edwards
* Gotas d’Água Sobre Pedras Escaldantes (2000), de François Ozon
* Jamón, Jamón (1992), de Bigas Luna
* Amantes do Círculo Polar (1998), de Julio Medem

Imagens em: http://www.adorocinema.com.br/ e http://www.cinemaemcena.com.br/

* Coluna 70mm originalmente publicada no jornal semanário O Trombone – Itabuna-BA.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Sim, Senhor*



Crítica (e otimismo) da cegueira

Sim, Senhor (Yes Man, EUA, 2008), de Peyton Reed, parece um filme cego. Algum mais chato pode falar em dirigido por um cego, embora não tenha nada a ver com Dirigindo no Escuro, de Woody Allen, que dirige um filme – dentro do filme – sem enxergar. Em Sim, Senhor, o ponto mais saliente pra mim é que o filme parece errar quando mira e acertar quando atira num alvo para o qual mal olha.
A história trata de um cara (Carl, interpretado por Jim Carrey) que tem uma tendência sobre-humana de dizer não a tudo. Desde o início, quando somos apresentados a esse tipo de pessoa, fica claro que não importa o que seja feito de indelicado, esquemático ou constrangedor (bundas de fora com roupa de hospital, piadas com idosos e dentadura, etc): o importante é o riso. Se preferir em parágrafos garrafais: em Sim, Senhor o fim (riso) justifica os meios (esdrúxulos).

Uma cena chave dessa idéia é durante a cerimônia de “aceitação” de Carl, evento responsável pela guinada na vida dele, e no roteiro do filme. A idéia é passar a dizer sim e a aceitar as coisas e as pessoas sem pestanejar – analogia óbvia com o que faz o público médio de filmes como esse. A premissa é aparentemente bem irracional mesmo, a ponto de inicialmente nosso querido Jim Carrey desafiar qualquer lógica em detrimento da “promessa pelo sim”.

A partir dessa idéia do sim desenfreado a tudo que se vê e se encontra, liga-se no turbo a idéia de colocar qualquer atitude que leve à risada da primeira à sétima instâncias, e que tudo se junte no final, bem como o papai Syd Field manda nos manuais de roteiro – mesmo que existam roteiros bem piores dentro desse manual, diga-se de passagem.

O curioso é que essa obsessão quase homicida pelo encaixe das coisas e (principalmente) pelo riso, se por um lado ganha pelo cansaço e você realmente ri, por outro faz você observar pontos positivos de pingos isolados, que sufocam menos e permitem uma saudável respiração de todos nós. De um ou dois diálogos com respostas afiadinhas a um retrocesso causado (indiretamente) por esse “sim” automático. Temos aí um ponto que representa uma revira-volta, esperada para se aumentar uma tensão e se chegar ao final feliz, embora inesperada pelo motivo – de aparência inocente. Mas, não só.

Esse mesmo fato remete também – de uma maneira um tanto irônica devido ao completo mal-entendido –, a uma questão essencialmente norte-americana: a paranóia defensiva (ou ofensiva, se menos ingênuo). Essa questão pode soar oportunista, datada e opressora para uns (nada de novo), mas a mim, como foi abordada, me pareceu mais até oportuna.

Talvez o grande porém é que esse ponto está deslocado, num filme claramente mais “industrial” do que “político” – o que obviamente não o impede de levar sua carga de produto para exportação que é. E o mesmo porém fica ainda mais forte por se tratar de uma comédia ‘alto astral’ que parece gritar: “só quero ser escrita com C e A maiúsculos; e pouco ou nada além disso”. Para mim, não consegue – mesmo com uma ótima cena final, especialmente por (mais uma vez) seu tom mais auto-crítico e irônico do que cômico.

Fime: Sim, Senhor (Yes Man, EUA, 2008)
Direção: Peyton Reed
Elenco: Jim Carrey, Zooey Deschanel, Molly Sims

8mm
Terra agradece
Ela pode nunca vir a se tornar grande atriz (apesar de desde Fim dos Tempos já ter minha simpatia declarada), mas Zooey Deschanel, aqui, está de novo estranhamente linda – mesmo que nem tão estranha. Ver aqueles olhos azuis cantarem, rirem, dirigirem uma moto, e mandarem você morrer afogado é dessas coisas que realmente não têm preço. Me permitindo a coroa da frivolidade, a beleza dela ajuda a melhorar o filme.

Terra treme
Sophia Loren conversando pra todo o mundo ouvir, e olhando nos olhos de ninguém menos que Meryl Streep. A mesma galáxia vê Robert de Niro elogiando Sean Penn com honestidade no olhar vindo dos dois lados. (Diante de tanto talento, e com Los Angeles propensa a abalos císmicos, o mundo todo aproveita a desculpa e começa a tremer também. Pausa para o acontecimento, e pausa para o efeito colateral da pausa. Mundo volta ao normal. Volto a escrever o texto.)
No discurso, Penélope Cruz lembra de Pedro Almodóvar, Fernando Trueba e Bigas Lunas, diretores que apostaram (e apostam) nela (desde) nova. Sean Penn dedica seu segundo Oscar (além de aos gays – ele interpreta o histórico político Harvey Milk) a Mickey Rourke (concorrente e que ganhou no sindicato da categoria), num clássico caso de dois caras que sabem como não serem queridos, mas cuja honestidade da rabugentice também cativa (ou já cativou) muita gente – como eu.
O melhor da edição do Oscar desse ano, pra mim, foi essa coisa do reconhecimento – mais do que protocolar, soou de coração nesses casos. Na cerimônia, antigos vencedores apresentando os indicados e entregando o Oscar ao ganhador parece ter sido a sacada da noite.
Ou seja, gente reconhecendo gente, e de maneira aparentemente honesta, o que é sempre bom. Principalmente por se tratar de uma cerimônia competitiva (embora qualquer tipo de “competição artística” deva ser bem menos relevante como competição do que qualquer uma esportiva, por exemplo – lembrem-se disso sempre, por favor) em que muita coisa chama mais a atenção e está mais presente do que o mérito.

Vistos e/ou revistos durante a semana:
* Klaps (1976), de Krzysztof Kieslowski (curta)
* Um Canto de Amor (1950), de Jean Genet (curta)
* Premonição (2000), de James Wong
* Eu e as Mulheres (2007), de Jon Kasdan
* O Silencio dos Inocentes (1991), de Jonathan Demme
* O Casamento (1976), de Arnaldo Jabor
* Sim, Senhor (2008), de Peyton Reed (cinema)
* Fando e Lis (1968), de Alejandro Jodorowsky

Imagens em: http://www.imdb.com/ e http://www.myparkmag.co.uk/

* Coluna 70mm originalmente publicada no jornal semanário O Trombone – Itabuna-BA.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Mudança

Jornal mudando de sede, sem edição no carnaval. Sábado que vem, se tudo ocorrer como planejado, tudo de volta normalmente – coluna 70mm incluída.

Vistos e/ou revistos durante a semana:
* E o Vento Levou (1939), de Victor Flemming
* Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese
* Não Furtarás (1988-90), de Krzystof Kieslowski (média-metragem parte do “Decálogo”)
* Sobre Meninos e Lobos (2003), de Clint Eastwood
* Não Cobiçarás a Mulher do Próximo (1988-90), de Krzystof Kieslowski (média-metragem parte do “Decálogo”)
* Leonera (2008), de Pablo Trapero (cinema)
* Uma Rua Chamada Pecado (1951), de Elia Kazan
* Monty Python – O Significado da Vida (1983), de Terry Jones (e Terry Gilliam)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Falsa Loura*



Espelho quebrado

Carlos Reinchebach, 63, é um dos que defende mais abertamente o cinema “popular” no sentido financeiro do termo, idéia coerente não só com os que habitam sua obra, mas também com o ambiente de sua juventude. Em entrevista que vi há algum tempo não lembro onde, ele disse que sente falta dos anos 60 e 70, quando o preço do ingresso do cinema era equivalente ao da passagem de ônibus, e quando as classes C e D eram um público fiel das produções brasileiras. No mínimo simpático a essas camadas da população, a relação delas com as mais abastadas é o pano de fundo de seu último filme, Falsa Loura (idem, BRA, 2008), no qual Carlão (como é mais conhecido) revisita com relativo sucesso não só suas convicções sócio-políticas, como aprofunda (como poucas vezes já vi) o ser humano que é a personagem título.

Depois de uma citação de Sócrates, o filme começa um com dança mais do que sensual entre Regina e Silmara – respectivamente interpretadas por Luciana Brites e Rosane Mulholland. Essa última nos dá a entender, logo em seguida, ser uma operária que, além de sexo, exala arrogância e impaciência com mulheres sem metade do talento visual dela – ou seja, com quase todo mundo. Para completar bem esse raciocínio, ela berra para uma amiga: “todo mundo acha que eu faço programa, mas, olha, eu não sou puta” – não exatamente nessas palavras, talvez, embora a rispidez seja ainda maior do que a que você pensa. Na sequencia, ela “bate o ponto” ao se pegar no meio da rua com alguém que, até que se esclareça mais tarde, é mais estranho do que parece.

Essa primeira parte é uma introdução, que, assim como todo o resto do filme, questiona a imagem e a impressão das pessoas para si e para os outros. É bom dizer que, frases como “nem tudo é o que parece” ou “a primeira impressão (nem sempre) é a que fica”, se ditas numa discussão que quer se basear em argumentos, irritam qualquer um. Só que em Falsa Loura, felizmente, Carlão consegue trabalhar com esses pensamentos de “senso comum” (para ser educado) e transformá-los em um resultado eficaz como audiovisual.

Os personagens por quem devemos sentir empatia são membros das classes C e D, aqui desenhadas com naturalismo, que consegue viver muito bem com a questão política e social do filme, discreta e funcional. Os representantes das classes A e B (do empresário ao vocalista da banda), por sua vez, são pintados como predadores caricatos, o que ajuda na impressão ideológica de seu autor, mas destoa no que diz respeito às personalidades convincentes das operárias.

A loura
Silmara, assim como suas colegas tipicamente proletárias, passa longe da erudição e gosta mesmo é do “popular” – não sem razão, uns podem chamar de brega. A questão é que esse brega não é julgado, mas apenas transformado numa parte não só integrante como necessária ao mundo dessas mulheres, que sonham em transar com esses ídolos-fetiches. Esse sonho talvez exista nem tanto pelo sexo em si, mas pelo fato de atingirem um ápice teoricamente inatingível para elas, num misto de determinismo e preguiça – embora a situação seja muito mais complexa, trata-se de uma harmonia com a obra.

Dessa maneira, quando uma delas consegue realizar esse sonho a princípio utópico para todas do grupo, há também um conflito natural, entre pessoas que mal se conhecem e que vivem realidades distintas, numa relação que beira criador e criatura sem nada em comum. O ponto positivo é que esse relacionamento dos menos abastados diante dos objetos de admiração e cobiça, flui com certa naturalidade – dentro de uma dificuldade natural. Reichenbach é feliz ao mostrar que as interações ali não se baseiam nas diferenças sociais ou financeiras (que aqui destroem), mas sim numa coisa que todo ser humano sente: desejo.

Esse desejo é coerente com a citação a Sócrates, no começo, na qual se fala sobre o prazer e a dor, e como a busca por um significa estar sujeito ao outro. Mais do que isso, uma vez que o filme vai muito além de sua epígrafe, essa busca é capaz de mostrar a fragilidade de boas intenções, assim como da idéia do personagem diante da vida, ou de um simples fato, visto, sentido e interpretado de maneira diferente por quatro pessoas (diretamente) envolvidas nele.

O trabalho com pessoas e pensamentos populares, apesar do risco de ser seduzido e às vezes fisgado por inúmeros clichês, torna o trabalho de Carlão ainda mais interessante, uma vez que ele dá profundidade ao seu tema e aos seus personagens. Apesar dos estereótipos sem nenhuma carga humana, completamente distintos de Silmara e as do seu meio, eles acabam por se fechar numa obra coerente, do determinismo ao fatalismo melancólico.

Como um dos expoentes do movimento da “Boca do Lixo” dos anos 70, o gaúcho radicado em São Paulo mostra que sabe trabalhar com o “lixo” e o “luxo”, com ênfase nas aspas em ambos, e transformá-los num luxo de filme. Sem aspas – e com pouco ou nada de luxuoso, mas excepcionalmente bem acabado. Muito bom.

Fime: Falsa Loura (idem, Brasil, 2008)
Direção: Carlos Reichenbach
Elenco: Rosanne Mulholland, Djin Sganzerla, João Bourbonnais, Cauã Reymond, Mauricio Mattar


8mm
Mulheres

Curioso que, sem pensar previamente nisso, terminei vendo, em menos de uma semana, três filmes basicamente com mulheres e sobre mulheres, mas com praticamente mais nada em comum entre eles – além da qualidade. De Falsa Loura a 8 Mulheres, passando por Virgens Suicidas; do naturalismo ao coerente teatro caricato, flertando com um pouco de minimalismo pelo caminho.
De um Brasil proletário e conflituoso, mas felizmente não resumido a isso, a uma França fria, burguesa e ironicamente divertida, além de muito francesa – sem redundância ou hipérbole alguma no que digo. Para completar, todos trazendo consigo parte de suas influências, mas também funcionando como peças únicas de idioma próprio – mesmo que filhos das línguas mãe. Ô coisa boa essa diversidade...

Até onde você vai, QT?
Os filmes de Quentin Tarantino são uma droga. Primeiro você tem o contato inicial graças a um outro (primordialmente no cinema, quando não numa locadora ou emprestado), antes de passar você mesmo a comprar – o DVD. Depois você começa a aumentar a dose do medicamento (o filme) de tal maneira que, após tanto uso, você sabe que cada recaída (revisão) vai levar àquela sensação de “ah, foi bom, mas quero uma sensação nova”. Só que, depois de alguns dias de rebordosa (vendo outras coisas dificilmente do mesmo nível), lá está você pensando novamente no bendito entorpecente: o filme que só ele faz.
Essa semana vi o primeiro trailer do Bastardos Inglórios (tradução vai ser essa literal mesmo?), o novo dele. Quando soube do projeto, e da ligação com a segunda guerra mundial, fiquei meio ressabiado porque achava o assunto “sério” demais pra QT. Para um cara que se mostra obcecado por tanta coisa em sua obra, é inevitável achar que enfim ele vai ficar cansativo graças aos inúmeros maneirismos. Mas, se hoje uma pergunta permanece sem resposta pra mim, essa é: até onde vai o seu talento Tarantino?
Ps: O À Prova de Morte, o anterior dele lançado no festival de Cannes num pré-histórico 2007, permanece sem confirmação por aqui. Culpa da Europa Filmes...

Vistos e/ou revistos durante a semana:
* Falsa Loura (2008), de Carlos Reinchebach
* Jules e Jim (1962), de François Truffaut
* Além das Nuvens (1995), de Michelangelo Antonioni e Wim Wenders
* Blade Runner (1982), de Ridley Scott
* 8 mulheres (2002), de François Ozon
* Alma Corsária (1994), de Carlos Reinchenbach
* Garotos de Programa (1991), de Gus Van Sant
* Virgens Suicidas (1999), de Sofia Coppola
* Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha

Imagens em: http://www.revistapaisa.com.bbr/ e http://www.artcenicas.com/

* Coluna 70mm originalmente publicada no jornal semanário O Trombone – Itabuna-BA.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Silêncio

Vistos e/ou revistos durante a semana:
* Carrie, a Estranha (1976), de Brian de Palma
* Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), de Marcelo Gomes
* O Desespero de Veronika Voss (1982), de Rainer Werner Fassbinder
* Casablanca (1942), de Michael Curtiz
* Juventude Transviada (1955), de Nicholas Ray
* O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969), de Glauber Rocha
* Sonho de Cassandra (2007), de Woody Allen
* Dois Dias em Paris (2007), de Julie Delpy

Teoricamente não posso dar um piu, literalmente, mas a peste da Julie Delpy fez eu dar uma gargalhada monumental - e igualmente perigosa, mas não me contive. E não só. Apesar de o filme ter muita coisa que incomoda, alguns momentos são uma delícia de leveza (e outros "apenas" muito bons), de porcos e coelhos a cenouras e Rimbaud.

Aliás, coisa legal assistir no mesmo dia a O Dragão... e Dois Dias em Paris e levar em consideração a coisa da identidade em questão - mas isso é apenas uma divagação.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O Curioso Caso de Benjamin Button*



Poesia sem poeta

Li, sem ter conseguido confirmar, que David Fincher (Clube da Luta, Se7en, O Quarto do Pânico) dirigiu Zodíaco (2007) como condição para chegar a O Curioso Caso de Benjamin Button (2008), teoricamente seu maior desejo. Se for mentira, fica a impressão de que Fincher talvez tenha consciência de que funciona melhor quando trabalha com a agonia ligada ao tempo, e nem tão bem quando ela é ligada a um sentimento mais profundo – e ele pode ter escorregado por ter se arriscado num filme mais “diferente”. Mas se for verdade, o diretor de Clube da Luta parece ter ensaiado, durante mais de 10 anos, uma peça de apresentação única que, no dia D, teve todo o texto mudado – embora com consentimento dele.

A premissa do filme, baseado na obra de F. Scott Fitzgerald, é fantástica: um menino (Benjamin, interpretado por Brad Pitt) que nasce velho e o que ganha em idade também ganha em juventude; envelhece em idade ficando mais novo em aparência. Mais do que isso, suas “primeiras vezes” (bordel e bebedeira, por exemplo) acontecem com ele ainda novo em idade, mas ao mesmo tempo quase decrepto visualmente, de forma a fazer qualquer pessoa duvidar que um alguém com aquele visual nunca tenha transado ou se embriagado. No fim das contas, ele cresce ficando mais jovem e passa, de uma maneira bem pessoal, por muito do que a maioria das pessoas passa, com enfoque maior (teoricamente) nas relações interpessoais.

A trajetória de Benjamin, pelo seu caráter claramente surreal, é fascinante, mas muito mais pela idéia do que pela execução. A narração, a performance de Brad Pitt e todo o investimento de Fincher numa sobriedade para a história, transformam Benjamin Button em apenas mais um caso diferenciado, como muitos outros da vida real – o que ele não é – e que não causam mais empatia alguma, por um natural estado de dormência e apatia na maioria de nós com relação a problemas alheios em mundo tão cheio deles.

Lá pelo meio do filme, por exemplo, temos aquela que talvez seja a maior narração (em tempo) de todo o filme. Trata-se de uma descrição minuciosa de acontecimentos para se justificar uma triste coincidência, numa mistura de Amélie Poulain (2001) levado a sério com um pouco do final de A Última Noite (2002), de Spike Lee. O ponto é que, diferente de quase todo o filme, essa parte parece buscar fazer com que o espectador entre na história. No entanto, até ali, Benjamin sussurrava o tempo todo “não se aproxime”, antes de, súbita e rispidamente, lhe puxar pelo braço.

Esse é um problema porque, apesar de sem aparentemente nada de verossímil, a história (não falo do roteiro, mas da sua base, o seu resumo – não li o livro) é essencialmente humana. Ela fala, de uma maneira bem própria, sobre pessoas, sobre a vida e as oportunidades. Fincher, talvez por um medo de transformar a coisa num melodrama fantasioso cheio de gordura, impõe uma distância enorme entre você e o filme. A paixão fica apenas na história e não consegue vir também para o “contar a história”.

Contar uma história, aliás, foi o que Fincher fez muito bem em Zodíaco, que, embora pra mim seja o melhor dele, não tem (ou não deveria ter) nada a ver com esse aqui. Aquele era no fundo um filme de gênero muito bem tratado e sintonizado do início ao fim, enquanto Benjamin se aproxima muito mais da poesia.

O que me parece talvez o maior defeito é que essa poesia vem didática, quase explicativa. Fincher, mais mecânico do que nunca, a descreve, ao invés de recitá-la – com o audiovisual, que é seu meio. Descrição essa culminada com um final que parece uma mistura do superficial da publicidade com uma lição de moral boba de uma fábula que não funciona. Em meio a tanto potencial (e tantos minutos), uma pena.

Filme: O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, EUA, 2008)
Direção: David Fincher
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Julia Ormond.


8mm

Brad Pitt
Num filme como Benjamin Button, é bom relativizar Brad Pitt (e um pouco também Cate Blanchett), em quem a maquiagem e os efeitos visuais às vezes são mais importantes e chamam muito mais a atenção do que a atuação em si – caso semelhante, por exemplo ao do ali ótimo John Hurt (apesar do mesmo porém, maior até) no ainda melhor O Homem Elefante (1980), de David Lynch. Preferi Cate Blanchett, o que pode soar como hipérbole, mas também não quer dizer que eu ache (o que muita gente acha) o marido de Angelina Jolie ruim como ator – não é o caso. Só acho tudo aquilo confuso e duvidoso demais pra avaliar com clareza.

Heavy Metal
Apesar da decepção com esse novo Fincher, permaneço ansioso pelo seu novo projeto já anunciado para 2010: Heavy Metal. Não tem basicamente nada a ver com o estilo de música, mas sim de uma “refilmagem” de uma animação de 1981, que envolve horror, fantasia e erotismo – numa adaptação livre de uma revista francesa de mesmo nome.
Teremos ainda Zack Snyder (refilmagem de Madrugada dos Mortos; 300), Kevin Eastman (co-criador de As Tartarugas Ninjas), além de Tim Miller (curta Rockfish) e Gore Verbinski (A Mexicana, trilogia de Piratas do Caribe).
Gente boa, gente desconhecida e, se de mau humor, gente ruim. Mas, independente disso, gente muito diferente. Embora não saiba como isso pode dar certo, não deixa de ser estranho (isso é bom) ver um projeto de animação assim.

Pausa
Na quarta-feira (4) vou ter que passar por uma pequena cirurgia – tirar um cisto da prega vocal – o que me deixará sem contato social por alguns dias, antes e depois da operação. Ou seja, nada de cinema, nem nada de 70mm publicada na próxima semana. Se tudo der certo, creio que dia 13 estou de volta com texto novo. Até.

Vistos e/ou revistos durante a semana:
* 007 Contra o Satânico Dr. No (1962), de Terence Young
* O Processo de Joana D’Arc (1962), de Robert Bresson
* A Dupla Vida de Veronique (1991), de Krzysztof Kieslowski
* O Curioso Caso de Benjamin Button (2008), de David Fincher (cinema)
* Morte em Veneza (1971), de Luchino Visconti
* A Mosca (1986), de David Cronenberg
* Através de um Espelho (1961), de Ingmar Bergman
* O Último Imperador (1987), de Bernardo Bertolucci
* Coluna 70mm originalmente publicada no jornal semanário O Trombone – Itabuna-BA.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Se Eu Fosse Você 2*



Gargalhada amarela

Se Eu Fosse Você 2 (idem, Brasil, 2009), de Daniel Filho, já bateu a maioria dos recordes de bilheteria no Brasil, deve bater mais alguns enquanto escrevo, e mais outros enquanto vocês lêem. Ou seja, ele como franquia e produto de sua idealizadora-mor (Globo Filmes) é teoricamente um modelo para uma “indústria de cinema”. A questão é até que ponto isso é bom ou ruim? Essa é uma pergunta que merece centenas de debates, dezenas de ensaios e uma meia-dúzia de livros, além de alguns filmes – no mínimo. Mas vou aqui rabiscar algumas coisas sobre o assunto.

O $uce$$o do filme parece fazer com que a maior parte dos filmes brasileiros do “grande público” se resumam a mundos maravilhosamente isolados. Os filmes ou são de sertão, ou são de favela ou são do maravilhoso mundo do Projac. Nesse último, o Rio de Janeiro continua lindo, só que sem absolutamente nada além das classes A e B plastificadas, num planeta onde nem pontas de cigarro sujam o ambiente – aqui, fumar é um crime hediondo.

Lógico que existem felizes (e infelizes) exceções, que misturam mundos, do mesmo jeito que há pérolas hiper bem-feitas desses mundos bem particulares – assim como temos filmes como o Carreiras (2006), do Domingos Oliveira, pra falar num recente ainda fresco em minha memória e que não se encaixa em nenhum dos casos. Mas, por outro lado, também existem coisas que seguem as regras de uma das partes desse trinômio e não funcionam muito além disso: e é justamente o caso de Se Eu Fosse Você 2.

Começamos com a esperada explicação tola, mas compreensível e coerente com o filme. Quando Tony Ramos e Glória Pires pensam em se separar, temos um conflito gerado pelos Beatles, que, num telefonema subseqüente, resulta numa ótima gag, que parece tirada de um filme de Woody Allen – trocando o jazz pelos meninos de Liverpool. O problema é que, fora essa sacada, me esforcei pra lembrar, mas nenhuma outra ficou.

As piadas e situações com o sexo oposto são na maioria das vezes óbvias e baseadas em frases feitas (talvez rimos por um “inteligente” ritmo rápido que impede qualquer reflexão sobre a elaboração/interpretação do texto), o machismo está lá firme e forte (homem = futebol, grossura, trabalho; mulher = compras, delicadeza, casa), assim como tudo ligado ao conservadorismo e a uma comédia chula. Ouvimos que “criança que faz criança não é mais criança” e vemos que “homem que dança é gay”.

Por outro lado, Daniel Filho induz (sem empurrar) ao riso mais do que no primeiro filme. A câmera parece gritar menos, as situações fluem com mais naturalidade e, consequentemente, com um pouco mais de humor. Exceção feita a uma cena (quando a briga fica feia e parece parte de um outro filme), o constrangimento é filmado de uma maneira que ele geralmente fica do lado de lá e o riso vem pra cá sozinho.

Esse riso de Se Eu Fosse Você 2 às vezes chega ao nível de uma gargalhada, e isso é sempre bom. Diferente do amarelo e o medo de uma falta de diversidade que vêm junto com ela.

Filme: Se Eu Fosse Você 2 (idem, BRA, 2008)
Direção: Daniel Filho
Elenco: Tony Ramos, Glória Pires, Isabelle Drummond, Chico Anysio, Maria Luisa Mendonça.

8mm
Cafonice quase irresistível
Uma coisa cafona, cheia de gente que não sabe até que ponto eles e o evento devem ser levados a sério, mas que mesmo assim não dá pra não assistir: o Oscar. Depois de um 2008 surpreendentemente recheado de gente boa, esse ano o ôba-ôba maior, pra o pessoal da Academia, é em cima de O Curioso Caso de Benjamin Button (13 indicações), de David Fincher (Clube da Luta, Seven, Zodíaco).
Não sou do fã-clube do cara (que tem uns membros bem chatinhos), mas ele tem dado menos importância aos seus malabarismos, a ponto de ter feito um Zodíaco da vida: um filme com atores, roteiro e direção no mesmo tom, e que conseguem sustentar durante duas horas e meia uma nota bem alta. Não li coisa tão boa da nova parceria dele com Brad Pitt, mas...

Além...
Dos outros mais comentados, vi o Batman – O Cavaleiro das Trevas, e dá pra dizer que Heath Ledger, lá do além, merece o Oscar que vai ganhar; e que James Dean vai ficar com uma pontinha de inveja – mesmo que o Rebelde Sem Causa não deva nada a Ledger ou a nenhum outro ator entre nós. Vi ainda a coisa sensacional que é Wall-E, defendido por muita gente boa como a melhor coisa que saiu de Hollywood em 2008. Como minha Hollywood se resumiu a bem pouca coisa esse ano, concordo.
De resto, não vi e já gostei do Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen, e do Milk (ainda sem tradução), de Gus Van Sant. O Lutador, de Darren Aronofsky (Réquiem para um Sonho, A Fonte da Vida), deve valer no mínimo pela atuação de Mickey Rourke e pela trilha sempre ótima de Clint Mansell. E quero ver também A Troca, de Clint Eastwood, que depois de já ter feito algumas obras-primas, lança dois filmes em menos de 12 meses e já aparece na pré-produção de outro. Completamente ativo aos 78 anos. Alguém encomende cinco estátuas, por favor.

Vistos e/ou revistos durante a semana:
* Trainspotting (1995), de Danny Boyle
* Entrevista com o Vampiro (1994), de Neil Jordan
* A Igualdade é Branca (1994), de Krzysztof Kieslowski
* A Liberdade é Azul (1993), de Krzysztof Kieslowski
* Se Eu Fosse Você (2006), de Daniel Filho
* Amores Brutos (2000), de Alejandro González Iñárritu
* Menino do Rio (1982), de Antonio Calmon
* Contos Proibidos do Marquês de Sade (2001), de Phillip Kaufman
* Se Eu Fosse Você 2 (2009), de Daniel Filho (cinema)
* A Fraternidade é Vermelha (1994), de Krzysztof Kieslowski
* A Professora de Piano (2001), de Michael Haneke

Imagens em: www.seeufossevoce.com.br/ e http://adisney.go.com/disneyvideos/animatedfilms/wall-e/flash_site.html

* Coluna 70mm originalmente publicada no jornal semanário O Trombone – Itabuna-BA.